O universo feminino do vinho

 O mundo dos vinhos já foi território exclusivo dos homens: eles produziam, escolhiam, recomendavam e opinavam sobre a bebida. As mulheres eram, nesse contexto, consumidores passivos - apenas bebiam o que lhes era escolhido. Mas, as coisas mudaram, e atualmente o mercado procura conquistar o público feminino avidamente.

Uma pesquisa feita pela Diageo, um dos maiores fabricantes mundiais de bebidas, mostra que 65% dos consumidores de vinho no Brasil são mulheres, que deixaram de ser apenas apreciadoras passivas para ocupar importantes postos no mercado vinícola: produtoras, enólogas, jornalistas especializadas e sommeliers. Não. A mulher busca benefícios diferentes que os homens nos produtos e serviços oferecidos. Ela é, por exemplo, mais detalhista e gosta de ser paparicada por vendedores. Esse pode ter sido um dos fatores do encantamento feminino pelo mercado dos vinhos.

As lojas especializadas possuem vendedores que sabem explicar e não estão com pressa de atender. Até os grandes varejistas, como supermercados, identificaram essa oportunidade e colocaram a disposição dos consumidores setores totalmente voltados para a bebida; alguns com especialistas para atender os clientes e catálogos explicativos próximos às gôndolas.

Outro grande segredo da conquista do público feminino são os rituais que a bebida proporciona. O consumo do vinho é envolto em estímulos ritualísticos: primeiro, escolhe-se a procedência e o tipo das uvas, depois, abre-se a garrafa, que precisa estar na temperatura adequada, de acordo com o tipo do vinho que será servido.

Algumas vezes, decanta-se o vinho, para que ele entre em contato com o oxigênio e libere seus aromas. Derrama-se o líquido na taça correta, gira-se a taça em movimentos contínuos para "abrir o buquê", cheira-se o líquido e só então bebe-se um pouco para sentir o sabor.

Degustar um vinho requer envolvimento espiritual e sensorial; eles trazem consigo dezenas de aromas e buquês, das mais variadas origens e espécies; e, para captar essas nuances, é preciso estar em sintonia: "sentir e entender" o vinho. As mulheres adoraram isso.

O universo do vinho ainda conjuga charme, cultura, estilo de vida e gera relacionamento - por isso o sucesso das confrarias femininas. Em seu livro: Público Alvo: Mulher (editado no Brasil pela Campus Editora), Faith Popcorn distingue o comportamento de compra entre os dois sexos: "As mulheres compram mais e por motivos diferentes dos homens. Os homens querem que a transação ocorra. São mais diretos. As mulheres por outro lado estão interessadas em criar um relacionamento. Tudo se torna uma experiência pessoal".

 

A mulher consumidora, portanto, quando entra em uma loja não busca só uma transação comercial, mas, na maioria das vezes, está interessada em criar um relacionamento com a empresa ou com a marca. Cabe às empresas que quiserem aproveitar esse filão, descobrir como e quando vender para mulheres.

Com o avanço significativo da vida profissional e o aumento de salários das mulheres, este mercado consumidor já é o que mais cresce, decide e consome em todos os setores, mesmo aqueles que há pouco tempo eram exclusividade masculina, como o de vinhos.

Por outro lado, não acredito que devam existir produtos diferenciados para o paladar feminino, como está surgindo na indústria americana. Gostamos dos vinhos que não definam gêneros, mas que sejam bons, saborosos, aromáticos. A vinicultora Susan Sokol Blosser, por exemplo, lançou no Oregon, o "Meditrina", um blend de Pinot Noir, Syrah e Zinfandel. Não se fala abertamente que ele é dirigido ao público feminino, seus produtores não querem alienar qualquer público. Mas destacam sua cor, sabores e aromas e há apenas uma sutil sugestão: o rótulo é vermelho e seu nome é o da deusa romana do vinho e da saúde, prima de Cúpido e filha de Apolo.

As sensibilidades relacionadas ao campo do olfato e do paladar independem do sexo. Não estamos buscando um vinho cor-de-rosa ou doce, e, apesar de sermos mais vulneráveis aos efeitos do álcool, não existem evidências que sejamos diferentes quanto às nossas preferências em relação a vinhos.

Fonte: Revista Adega